sexta-feira, 13 de maio de 2011

Nick: I. The Reason

Era um dia escuro enquanto voltava para minha casa das aulas de  espanhol aos meus treze anos e caminhava calmamente pelas ruas de Westwick, uma cidade no interior da Inglaterra. Cidade pequena e pacata. O máximo que se  podia escutar era um ruído bem baixo dos poucos carros que circulavam às nove da noite e os ventos de inverno que estavam sempre presentes nos meses de janeiro. Tudo corria bem na cidadezinha e já estava quase em casa, quando de repente ao passar pelo beco escuro da antiga fábrica têxtil que pertenceu à família Harvey comecei a ouvir passos forçados e outros passos rápidos. Como se uma pessoa estivesse forçando a outra a correr e a puxando pelo braço.

            - Apresse esse passo, vadia! – Dizia uma voz masculina, claramente, muito alterada.

            - Perdoe-me, Mr. Blair. – Uma mulher em prantos e claramente desesperada suplicava pelo perdão do furioso Mr. Blair.

A cada segundo que se passava eu sabia que não deveria estar ali, mas ao mesmo tempo algo forte dentro de mim me instigava a seguir em frente. Então comecei a me mover sorrateiramente, encostado na parede, me guiando somente pelo som. Agora conseguia ouvir correntes batendo em algo de metal. E me recordei que havia um velho portão no beco da fábrica. Portão que servia de entrada para o armazém abandonado. De repente todo o diálogo que existia de súplicas pela mulher e ofensas pelo homem se aquietou. E pude ouvir algumas frases que pareciam ser as últimas:

            - O tempo sempre está contra nós. E agora você não vai ter que se preocupar com nada. Descanse em paz. – A voz saiu tão calma e de forma tão fluente que parecia ser algo muito bem decorado e treinado. Como se esse pequeno discurso o libertasse de todo o ódio que sentia antes, enquanto arrastava a mulher ao armazém.

Eu estava tão entretido com todo esse envolvimento de suspense que nem percebi que estava próximo demais do portão. O chão estava escorregadio do sereno que caia em Westwick e por um descuido meu, ao tentar avançar um pouco para um nível em que meus olhos pudessem ver, deslizei e cai. O barulho não foi alto, mas foi alto o suficiente para que o Mr. Blair ouvisse. De repente:

            - Quem está aí?! – perguntou com um tom calmo. Calmo demais para quem estava fazendo algo, aparentemente, muito errado e estava prestes a ser descoberto.

A reação óbvia que qualquer um teria seria a de correr muito. Como se algum dragão estivesse te perseguindo. Mas tudo que eu fiz foi ficar parado. Estagnado. Ouvia aqueles passos em minha direção e tudo que conseguia fazer era encarar o portão e esperar que alguém passasse por ali. Nada passava por minha cabeça a não ser a dúvida das feições de Mr. Blair, como ele seria e que roupa estaria vestindo. O medo nem sequer pensava em aparecer.

De repente o portão se abre um pouco mais e o que consigo ver é uma máscara de Mickey Mouse acompanhado de um casaco totalmente preto. Usava luvas emborrachadas e tinha na mão uma pistola com o cano alongado, o que me fez crer que era uma arma com silenciador. Nesse momento eu me encontrava parado e o encarando. Os olhos trêmulos e corpo idem.

            - Olá garoto, o que está fazendo por aqui numa hora dessas da noite? – Me fez uma pergunta que eu não tinha ideia de como responder. Qual poderia ser minha desculpa?

            - Eu... – Foi tudo que consegui dizer.

            - Bom, já estou de saída. É uma pena que tenha encontrado meu esconderijo secreto. Agora terei de achar outro. Se você fosse uma mulher bonita, até teria um espaço pra você. – Enquanto a última frase fora dita um único disparo foi feito. O barulho era tão baixo que não podia ser escutado a mais de vinte metros dali. Percebi que a experiência do Mr. Blair com armas era excepcional, já que um tiro era suficiente para terminar o serviço.

            - Arrivederci! – Disse o assassino misterioso enquanto já estava quase fora do alcance dos meus olhos devido à uma das saídas do beco.

Agora eu sabia que deveria ligar para a polícia e sair correndo dali. Mas novamente, não pude resistir. Eu ainda estava parado do lado do portão e o que fiz foi dar alguns passos para dentro do armazém. Como sabia que não devia haver luz por ali resolvi pegar o celular. O cheiro era horrível. Como se algo estivesse em decomposição ali dentro. Quando consegui ligar a lanterna do celular eu o deixei cair, imediatamente.

Eu consegui ver quatro corpos. E todos estavam lado a lado, organizados. Mas o pior é que havia muito mais e eu não sabia o que fazer. Foi aí então que tudo começou. A minha vida mudou a partir deste ponto. Não consigo me ver livre disso. E nem sei se quero.

Westwick, 13 de janeiro de 2002.
Nicholas Jackson Smith.”                   

9 comentários:

Dig dim! disse...

Nicholas Jackson Smith,

gravarei este nome! Curti!

Aline V. disse...

Uiiiii


gostei muito!!!

=)

Tem continuação????

Rafael Cotrim disse...

Tem sim Aline V. :)

Carlos José Pereira disse...

Caramba, quando você falou no email sobre blog, achei que seria mais um "bloguezinho de tecnologia" (como o meu... :-)
Fiquei muito impressionado. Parabéns! Já está no meu leitor!
Agora, não tem nada sobre licença nele... coloca alguma licenca CC, ou então e velha e boa copyright mesmo... Só pra se garantir pro futuro! No meu, eu coloquei uma CC, veja, se quiser um exemplo.
Grande abraço, e mais uma vez, PARABÉNS!
Carlão

Ellen disse...

Muito criativo, adoreeei! :)

Daniel Savio disse...

Realmente um conto misterioso (pois porque diabos o assassino usaria uma másca de Mickey Mouse?!)...

Fique com Deus, menino Rafael Cotrim.
Um abraço.

Rafael Cotrim disse...

Haha! Personagem da Disney sempre me assustaram, deve ser isso! :P

100cultura' disse...

http://100culturablog.blogspot.com/
Curti man, vc escreve bem, posso pegar e postar em meu blog?
Abraço! =)

Laís A. disse...

To curiosa e ansiosa para a continuação. Só consegui imaginar que se estivesse em inglês ia ficar muito mais do que perfeito :P