terça-feira, 21 de julho de 2009

Bailando na Noite - A vida é dura

1. A vida é dura

“Tente no próximo teste.” Era essa uma das frases que Paula ouvia quase todas às vezes que tentava entrar para o grupo de bailarinas profissionais do teatro Amsterdã em São Paulo. Virava-se, sempre com raiva do diretor, e voltava para casa cansada depois de uma longa rotina no seu trabalho de atendente num bar da Avenida São João, Freire era o nome do estabelecimento.

Ao chegar em casa, muitas vezes, Paula encontrara seu pai embriagado e sua mãe chorando em outro cômodo que não o mesmo de seu José. Era uma vida difícil, todos eram negros e sentiam na pele o preconceito que o brasileiro disfarça muito bem. Beijava sua mãe e sempre sentia um frio trazido pelas lágrimas geladas que do rosto da mesma saíam. Como conversar com Maria, sua mãe, já não dava mais certo, Paula se encaminhava diretamente ao banheiro cujo chuveiro era quebrado, o que não fazia mal quando se tratava de um dia quente, o problema era o inverno.

De banho tomado Paula, sempre que seu pai não estava por perto, tentava assistir à televisão, mas o maior problema é que normalmente o som que se sobressaía era o de tapas e gritos. Sentia-se entediada e angustiada ao mesmo tempo, por isso saía de casa sem rumo várias vezes.

Era numa praça solitária da zona Sul que Paula se sentia a vontade para ensaiar, só com a música imaginária, alguns passos de sua coreografia infalível.

Ao chegar à Praça José de Melo Neto ela encarou o palco e desfilou até lá, onze passos impecáveis, era tudo friamente calculado pela astuta bailarina negra. Sentou-se de forma magistral como um cisne que repousa sob as águas de um rio. Contara até três e juntamente com os ruídos das músicas que saíam de sua cabeça vieram os primeiros passos. A perna direita levantada até a altura da cabeça e os braços apontavam para o céu como se algo muito importante tivesse sido encontrado. Era perfeita, sem falha nenhuma. Após alguns minutos de treino percebera aplausos fortes e sinceros vindos de um único espectador que prestara atenção do início até o término da coreografia.

Caminhava vagarosamente com um terno de cor preta bem apagada devido ao excesso de vezes que fora lavado e um sapato de couro preto mal engraxado.

- Nunca vi alguém dançando Ballo della Regina tão bem quanto você o fez. – Disse ele com uma voz que parecia estremecer todos os órgãos da bailarina da noite. Paula com uma voz nitidamente trêmula revidou.

- Como soube que estava ensaiando esta música se não tem nenhum som por aqui? – Sorrindo pelo nervosismo explícito de Paula ele estendeu sua mão e disse pausadamente.

- Meu nome é Marcos, prazer. A respeito da “adivinhação”, eu como fã assumido da música clássica não pude deixar de sentir o ritmo bem distribuído em seus gestos doces de uma bailarina bastante experiente pela pouca idade que aparenta ter. – Ainda com menos jeito que antes, Paula preferiu não questionar o saber musical de Marcos.

- Meu nome é Paula e o prazer é todo meu. – Reparando atentamente no sorriso de Marcos, percebera que era tão lindo quanto qualquer homem desses famosos que tem por aí.

- Se não se importa, gostaria de te convidar a ir a um restaurante que está a duas quadras daqui. Posso te levar de carro, ou se preferir podemos ir andando, já que é tão perto. – Surpresa com a proposta mais do que inesperada de Marcos, Paula, gaguejando, retrucou.

- Você pensa que só por ser pobre e negra sou dessas mulheres fáceis? Pode ir se afastando, mocinho. Sua bela aparência e seu dinheiro não são suficientes para me convencer a sair contigo. Passar bem! – Deu-lhe as costas e saiu batendo o pé firmemente no chão como se estivesse com muita raiva.

- Se meu caráter for importante para te convencer é só me procurar. Estarei sempre te assistindo no mesmo horário e local, boa noite. – Paula ouvira essa última fala ecoando em seus ouvidos durante longos minutos que se arrastavam como se fossem horas. Chegou em casa e para seu alívio encontrara sua mãe e seu pai dormindo. O tão desejado sossego só podia ser sentido nessas horas.

Deitou em seu quarto com o travesseiro sobre a cabeça e se sentira arrependida do que fizera. “Idiota! Imbecil! A única pessoa que se interessa por você aparece como um anjo em sua vida e você se parece com o demônio querendo assustá-la.”. Pensava sozinha. Era um pensamento alto que conseguia tirar toda sua concentração e vontade de dormir. Uma agonia forte, mas ao mesmo tempo uma alegria ainda mais imponente tomava conta da bailarina da noite. Estava agoniada por ter pensado que fizera a coisa errada ao refutar o convite que, agora, lhe parecia irrecusável. E ao mesmo tempo se sentira feliz por sentir que alguém, hoje, realmente se interessava por ela.

Ao se passar duas, longas, horas, Paula, conseguiu dormir. Só conseguiu descansar por saber que seu trabalho não pararia devido aos seus problemas ou soluções, quem sabe.

Dormira por pouco mais de cinco horas e já estava de pé às seis da manhã, para que, pontualmente, às sete estivesse com um sorriso falso estampado no rosto e a frase: “Obrigada, a família Freire agradece.”, na ponta da língua. Família injusta! Pensava sempre que se lembrava dessa mísera frase que repetia milhares de vezes ao dia. O dono era um descendente de alemão gordo que, sempre, a chamava de “negrinha” e a dona uma mulher loira insuportável que não fazia nada além de gastar o dinheiro do marido. Todos os outros que trabalhavam com Paula eram pobres e se contentavam com o mísero salário mínimo que recebiam.

Estava trabalhando normalmente quando de repente, Peter, um rapaz que trabalha como garçom no estabelecimento chama a sua atenção para algo que estava atrás dela. Ao se virar para trás, ouve o estridente barulho da porta se abrindo. Vira para o cliente, inconscientemente, e diz algo semelhante a: “Bem vindo ao estabelecimento da família Freire, em que posso servi-lo?”, só que na medida em que as palavras saíam automaticamente da sua boca, a imagem que seus olhos observavam foi, lentamente, se decifrando em memórias. Marcos causara de novo, em Paula, a sensação de espanto. Nunca errara em um atendimento e ele logo se adiantou para que ela não gaguejasse mais e tornasse ainda mais perceptível o seu nervosismo, afinal, não queria comprometer o trabalho da moça.

- Um maço de cigarros, por favor?! – Disse ele como se não conhecesse a atendente negra. Ela estava totalmente confusa, será que Marcos já tinha se esquecido dela?!

- Pois não, senhor. – Deu novamente as costas para a porta de entrada e antes mesmo de entregar o maço à Marcos ele estendera a mão com uma nota de dois reais bastante amassada.

- Obrigado, senhorita. Passar bem. – Enquanto seus sonhos se esmoreciam e saíam pela porta da frente Paula disse, dessa vez, sem gaguejar.

- Obrigada, a família Freire agradece. – Lágrimas fluíam como água em um rio. Só que ao desdobrar, tão lentamente quanto à porta que se fechava, a cédula ela percebeu que houvera uma folha de caderno bem amarrotada amassada juntamente com a nota de dois reais, e nela estava escrito:

Pequena Paula, o mundo pode não ser totalmente nosso, mas o meu tornar-se-ia muito mais completo se você pudesse jantar comigo hoje à noite. Não atrapalharei seu treino noturno, e estarei te esperando sentado no banco ao lado de onde você se exercita. Para que tudo isso aconteça basta acenar para mim, estou ao lado do bar que você trabalha...

PS: Você fica linda de uniforme.”

Essas palavras soavam como uma bomba no coração da bailarina negra. Era como se ela fosse a mulher mais feliz do mundo. Sem dar satisfações nem mesmo ao seu chefe foi correndo em direção a porta. Ao acenar para Marcos ele deu um breve sorriso que dizia algo como: “Vou te fazer muito feliz.”.

Ao voltar para o caixa, com um sorriso estampado no rosto, teve de se desculpar com seu chefe que tinha tirado o dia para atazanar a sua vida. Mas nada, nada mesmo, poderia fazer com que ela se sentisse menor hoje, muito pelo contrário, as coisas que o patrão disse a ela soaram como elogios doces e sinceros, e pela primeira vez ela não o respondeu com ignorância. Karl, dono do bar, ao receber uma resposta delicada percebera que não mais estava incomodando Paula e agora quem sofria com seus “elogios doces e sinceros” era Peter.

Ao terminar o expediente, a única a ter fôlego para ir embora correndo era a dançarina. Chegou em casa mais rápido que o normal e foi logo em direção ao banheiro, sem nem lembrar o beijo maternal. Arrumou-se ainda mais depressa sem notar que a casa estava mais vazia que o normal. Só quando estava a caminho da praça que percebeu não ter encontrado nem sua mãe, nem muito menos seu pai. Mas continuou andando lembrando que nada poderia estragar aquela noite tão maravilhosa.

Inicialmente não havia nada nem ninguém na Praça José de Melo Neto e ela como sempre não se sentia sozinha, muito pelo contrário Paula podia ouvir os aplausos que estrondavam o teatro. Iria começar agora sua apresentação, todos se aquietaram e sua alma já estava no último estado de primor. Onze passos impecáveis e lá estava ela no centro do palco. Suas pernas se esticavam como se fossem molas e funcionavam como os ponteiros do relógio, em perfeita sintonia. Seus saltos altos e braços esguios faziam com que a bailarina parecesse estar voando. Era realmente uma atleta do alto escalão. Seus cabelos mexiam em conjunto, para cima e para baixo, suavemente, como folhas que caem durante o outono. Suas coreografias eram, realmente, perfeitas.

A dançarina da noite não gostava de ensaiar a mesma coreografia da noite passada só que essa merecia um pouco mais de atenção, para que ficasse, para sempre, na memória, guardada. De repente, no auge da música, no momento em que suas pernas fazem cento e oitenta graus perfeitos, a bailarina escuta três aplausos perfeitamente distribuídos em um intervalo de, exatos, três segundos. Algo que ao mesmo tempo foi meticulosamente calculado e ridiculamente espontâneo.

- Ainda melhor que na outra noite – Disse Marcos espantado com a beleza de Paula.

- São seus olhos... – Retrucou a bailarina, constrangida. Enquanto isso ele sorria e se preparava para a próxima resposta.

- Como a minha carta deixava bem claro que se quisesse sair comigo só era preciso acenar e você o fez, vamos?! – Perguntou ele com a certeza de que teria um sim como resposta.

- Estava esperando por isso. – Tentava passar uma segurança que não tinha ao responder com tanta veemência à pergunta do seu único admirador. E pelo que parece ele percebeu.

- Não precisa fingir ser algo que você não é! Venho te observando há dias e sei que está insegura, ainda, em relação a mim. – Deixou bem claro que estava sendo sincero.

- É. – Espantada com a beleza e respostas do rapaz as palavras começaram a sumir.

- Melhor conversarmos no restaurante, não acha? – Assentiu Paula com um leve movimento, vertical, de cabeça.

Sem saber aonde enfiar as mãos a bailarina seguia sempre observando os passos de Marcos, já que não sabia onde estava seu carro. Durante todo o caminho, da praça ao carro, eles não proferiram muitas palavras. Ao chegar na beirada da calçada se encontrava um carro simples, mas de muito bom gosto. Tinha a cor azulada, bem escura. E os vidros eram tão pretos que mal se enxergava o que se passava lá dentro.

Durante os sete minutos que se passaram até chegar ao restaurante o silêncio parecia tomar conta da conversa. Mas foi no Dolce Vita que as coisas, realmente, começaram a fluir. Era um restaurante tipicamente italiano e a carta de vinhos foi logo requisitada por Marcos.

- E então minha princesa, gostaria de tomar um vinho suave ou seco? Pra combinar com sua pele doce eu arriscaria um suave, mas a escolha é sua. – Encantada, cada vez mais, com a beleza do seu admirador, respondeu sem pressa nenhuma.

- Deixarei que você faça a escolha dos vinhos. Creio que saberá fazer a melhor escolha para nós. – Percebendo que Paula estava se sentindo mais a vontade ele ficava cada vez mais absorto.

- Espere um momento então, sim? – Com uma troca de olhares entre Marcos e o atendente, foram atendidos em alguns segundos. – Uma taça de vinho seco da safra mais antiga que tiver, e um vinho suave, também da sua safra mais antiga. Por favor. – Deu-lhe as costas o garçom de nome André, como estava escrito em seu uniforme, e foi logo à adega.

Passaram-se duas horas de conversa e sabiam basicamente tudo, um do outro. O que mais intrigava à bailarina era que Marcos nunca dissera nada sobre sua família. Como ela também não falava muito sobre a sua, deixou quieto.

Na hora de encerrar a conta, isso já era previsível, Marcos se responsabilizou pelo dinheiro. Todos os clientes do restaurante, sem restrições, olharam para o casal enquanto traçavam o percurso de volta à saída do restaurante. Era, mesmo, diferente. Um rosto masculino pálido, com exceção de alguns centímetros, lado a lado com um rosto feminino negro. A expressão “Os opostos se atraem” caia como uma luva para o par.

Agora o tempo já não se importava mais em voar, e quando se pegou em frente à sua rua ela se espantara.

- Vo-vo-cê não está andando rápido demais? – Parecia mais espantada do que, realmente, deveria.

- Exatos dezessete minutos que saímos do restaurante, Paulinha. – Ele não se incomodou com o susto de Paula. Muito pelo contrário, percebeu que ela não vira o tempo passar e lhe abriu um largo sorriso, o preferido da bailarina. – Se não se importa, gostaria que me falasse onde é a sua casa, exatamente, ainda não te segui até ela. – Um sorriso, agora, mútuo.

- É essa aqui! – Cantou. Ainda inconformada de como os ponteiros do relógio aceleraram tanto desde a última vez que os vira.

- Simpática! Mas, ainda, acho que você merecia um castelo, no mínimo. – Disse ele com os olhos fitando as bochechas, agora, coradas de Paula.

- Só não te convido para entrar porque meus pais já devem estar dormindo, então não seria muito agradável. – Assim que a última palavra saiu de sua boca ela recordara que não havia visto seus pais ao voltar do trabalho e uma leve expressão de pânico se apossou do seu rosto. Franziu a testa e tentava procurar por alguma luz acesa em qualquer cômodo, desprezando a distância que se encontrava da casa.

- Não se incomode com isso. Qualquer noite contigo já é muito para quem nunca teve nenhum segundo ao teu lado. – Ao observar os olhos atentos de Paula, que agora se perderam nas estrelas, ele, com uma voz preocupada questionou. - Tem alguma coisa errada, meu anjo? – A voz dele era doce e aveludada para os ouvidos da bailarina. E por mais preocupada que estivera, aquelas palavras amenizaram todos os seus medos e hipóteses assustadoras que vinha sugerindo para si.

- Não, não! – Negou ela contra a sua vontade, não queria mentir para ele, mas também não tinha certeza de nada. – Tudo bem. Só queria conferir se não havia ninguém acordado.

Seus olhos tremiam, e quando olhou para o lado os lábios dele estavam a milímetros dos seus. Paula, de imediato, fechou os olhos e, automaticamente, se aproximava tão lentamente quanto o vento que arrastava folhas secas que estavam no chão. De repente, um grito ensurdecedor faz com que ambos recuem assustados.

18 comentários:

Mayse disse...

Você estimula minha imaginação *-* consigo ver perfeitamente cada detalhe. Seus textos soam como música para os meus ouvidos.
Parabéns Raafa :)

Rafael Cotrim disse...

;) Valeu May. Esse continua no próximo episódio :D

Raquel disse...

quantas vezes eu vou precisar dizer que seus contos me surpreendem? ESCREVE LOGO ESSE SEGUNDO CAPITULO E NAO SE FALA MAIS NISSO!!!!

Rafael Cotrim disse...

*--* Sua expectativa me anima bastante EHAUEHUAEA ;D

Marcella disse...

Concordo com Raquel. Sempre que leio você me supreende cada vez mais, precisa escrever um livro, mas antes termine esse conto.
Parabéns Mesmo Rafa.
beeijos :*

Rafael Cotrim disse...

O que seria de mim sem esses elogios? Nada... ;)

Débora Andrade disse...

O que seria de MIM sem blogs como esse?
2º capítulo já! *-*

beeeijo :*

Mariana P. disse...

Esse seu conto é encantador, Rafa! E pelo o que te conheço, quando penso em Marcos, vejo você! *.* Parabéns meu amor! Ahh e quando penso em Paula lembro da música Janaína de Biquini Cavadão.. "Mas ela diz que apesar de tudo ela tem sonhos, mas ela diz que um dia a gente há de ser feliz..." Parabéns, Rafaa! :) Esperamos pela continuação!

Rafael Cotrim disse...

:D Aguardem gente. Estou trabalhando pesado na continuação, para ficar o melhor possivel :D

beeijos

Polly disse...

Agora estou presa a esta história...

Que tal continuar??

Beijos, cunhadoo!

Enzo disse...

veio, q lindo :P vc escreve muito bem! "consigo ver perfeitamente cada detalhe". Parabéns!

disse...

Rafa, gostei muiiiiitttoooooo do primeiro capítulo...espero pelo segundo ansiosa...

bjosss no coração.... :**

Rafael Cotrim disse...

Calma calma Polly ;D

Rafael Cotrim disse...

Enzo s2 :P falei que tu ia gostar!

Rafael Cotrim disse...

Leleska, valeu a pena? AHUAHEUAE

Mari e Ana disse...

Me peguei sorrindo enquanto lia. Perfeitos efeitos do conto em mim. Amei!
Ana ;*

Isabella disse...

Eu lembro desse! Não sabia que você tinha continuado, tou doida pra ler o resto, comento direito no segundo ;]

#marihmenezes. disse...

Peguei a história na quarta parte, e estou voltando para a primeira.
Faço ballet ebntão me identifiquei com o tema *-*
A trama é original, não sei o que esperar. Mas você é um bom escritor, sei que vai nos surpreender positivamente.
Estou correndo para a segunda parte, fui!