sábado, 18 de julho de 2009

João

Passeava pela rua cabisbaixo e pensativo até que me veio um rapaz jovem e sorridente que, sem querer, se esbarrou em mim. Conhecemo-nos naquele instante e uma semana depois éramos amigos fiéis. O tal jovem me inspirava tanta sabedoria que me sentira mais forte e até mais sábio ao teu lado. Não consigo entender o que fez com que eu me sentisse mais completo junto a ele.

Conversávamos sobre todos os momentos de nossas vidas, e discutíamos até sobre os relacionamentos amorosos, que tínhamos com as mulheres, entre nós. Com certeza, nascemos separados, mas éramos irmãos.

Até que um dia olhando-me no espelho percebi que o reflexo do belo rapaz não se fazia presente ali. Comecei a me indagar do que poderia estar acontecendo, se eu estava ficando louco ou quem sabe ele era um vampiro desses que aparecem e filmes e não apresentam imagens em frente ao espelho. Comecei uma busca incansável por qualquer resquício de sangue em seus objetos pessoais e simplesmente descartei a hipótese de estar ficando louco.

Passaram-se dias e não consegui achar marcas de sangue em suas roupas ou em quaisquer coisas suas. Até que resolvi discutir sobre isso com ele. Marquei para jantarmos em um restaurante a sós, ele e eu.

Antes de irmos ao restaurante João, o nome que lhe fora dado e que por acaso é o meu segundo nome, começou a me questionar sobre o que conversaríamos e eu ficava cada vez mais intrigado com essa história sem pé nem reflexo.

Chegou então o tão esperado dia e lá estava ele na mesa 41(quarenta e um) do restaurante Bullevar, que faz esquina com a Avenida São José. A propósito, o meu restaurante predileto. Então sem mais delongas decidi que depois do cumprimento formal, começaria logo a discutir sobre os reflexos no espelho ou a falta deles.

Como num passe de mágica ao apertar a mão de João ele começou a sumir em frente a mim. Paralisado eu fiquei por mais de trinta minutos com a mão estendida sem, realmente, entender o porquê da situação. Até que o garçom, muito gentil por sinal, estendeu-me a mão e me pôs a sentar. Perguntei-o se tinha visto um rapaz alto, charmoso e sorridente sentar nessa mesa e ele me respondera que de pessoas sentadas naquela mesa nesse dia só havia eu. Agradeci o rapaz e pedi uma água dessas com gás para aliviar a cabeça e pra não ter que sair de um restaurante tão garboso sem pedir nada. Dei uma generosa gorjeta a Marcelo, o gentil garçom, e fui para casa sem ter o que falar ou fazer.

Minha cabeça já não era mais a mesma. Após ter visto um rapaz sem reflexo, vi o mesmo rapaz sumir em frente a mim. Comecei a pensar o que faria da minha vida se estivesse ficando louco. Um homem novo de vinte e seis anos, que não aparenta nem mesmo vinte, sem mulher nem filhos. Só com um trabalho comum e com um salário de menos de três mil reais por mês. Meu Deus, o que será de mim. Pensando e sofrendo caminhava novamente cabisbaixo a meu apartamento.

Com todas essas dúvidas e problemas resolvi me deitar um pouco para aliviar o stress. Virei para o lado e apertei o travesseiro como se nunca tivesse visto ou tocado algo parecido. Dormi tranquilamente, até as duas da manhã, quando acordei com João batendo à porta.

Espere um pouco! João?! Mas o danado não tinha sumido na minha frente?! Resolvi conferir se a voz que ouvira era realmente a do desgraçado. Olhando pelas entranhas do olho mágico reconheci aquele sorriso que, agora, começava a me irritar profundamente. Não sabia o que fazer até que de repente a porta se abriu pelo lado de fora, sendo que eu tinha a certeza de que a tinha trancado por dentro.

João então veio me abraçar fortemente como se tivesse ficado muito tempo sem me ver. Falava que estava com saudade. Agora que eu não conseguia entender mais nada.

Sentou-se no sofá e perguntou-me se havia algum chá ou café quente para tomar, eu respondi indignado que ninguém faz café e muito menos chá às duas da manhã. Ele então me respondeu que tinha se atrapalhado com os fusos horários, afinal estava em Londres. Lugar que eu sempre sonhei em ir e até abri uma conta poupança pra juntar uns trocados e ver se um dia eu consigo visitar tão estimado lugar.

Continuando com sua história João me contava tudo sobre a viagem, e contou-me também que lá havia comprado um carro, um Porsche daqueles bem caros, que por mais uma coincidência eu sempre sonhei em ter.

Ainda assim João ficou horas e horas monologando até que percebeu minhas fisgadas de sono. Estava, literalmente, dormindo em pé. Resolveu, então, ir embora. Despedimo-nos informalmente - um aperto de mão e um abraço, nada mais - e eu que já não estava entendendo mais nada. Me joguei novamente na cama e perdi o horário do serviço, de tanto sono. Afinal, João havia saído de casa às quatro e meia da manhã.

Depois de ouvir um belo de um sermão do diretor geral da empresa resolvi comparecer ao consultório de um renomado psicólogo da cidade. Ele sem mais nem menos me disse que eu estava ficando louco e me passou vários desses remédios que só os loucos, realmente loucos, tomam.

Resolvi então acreditar no que ele disse e fui direto pra farmácia comprar meus remédios de insanidade. Ao chegar em frente ao caixa repassei à moça, bela moça, o papel que até então estava em minhas mãos e paguei ao rapaz que me estendeu a nota fiscal.

Passei pelo supermercado a fim de comprar algumas besteiras daquelas bem bestas mesmo. Decidi comprar um chiclete que vem em tubos como se fosse pasta de dente e um desses sucos que vem com mais corante artificial do que com frutas.

Cheguei em casa cansado de não fazer nada e resolvi assistir TV. Liguei. Mudei mais de canal do que prestei atenção, mas tudo bem. Estava ao menos fazendo algo relaxante, para pessoas normais, mas não para pessoas loucas. Decidi que o barulho do controle ao passar de canal me incomodava profundamente e resolvi jogá-lo em direção à televisão. Um estouro. O vidro se partiu em mil pedaços e alguns deles cortaram meu pé ao esquecer que estava descalço e andar sobre os cacos.

Não tinha, em minha casa, nada pra fazer um curativo desses que as mães fazem nos filhos quando se machucam, decidi ir ao hospital. Peguei o elevador até o térreo e esperei alguns minutos para conseguir pegar um táxi a frente do prédio.

O hospital ficava a umas três quadras de casa. Santa Helena, assim era chamado. Logo avistei a sua entrada. Pedi ao motorista que parasse, mas ele pareceu não ter escutado. Repeti educadamente e ele simplesmente não me dava ouvidos. Resolvi dar um tapa em seu ombro para chamar sua atenção e percebi que por baixo daquele monstruoso chapéu de taxista se encontrava João, a desgraça da minha vida.

Ele me olhou rapidamente e retomou a atenção no trânsito. Durante essa ação me saudava como se tivesse sentido minha falta. Desgraçado. Ele estava blefando comigo. Só pode! Decidi perguntar o que ele tem feito desde a última vez que me viu. Uma resposta rápida e fria. Dizia estar trabalhando como taxista há cinco anos.

Quando eu pensava estar tudo resolvido ele me chega com mais problemas. Se ontem a noite ele estava em minha casa e tinha viajado para a Inglaterra, como ele poderia estar trabalhando como taxista?! Afinal, nem dinheiro pra essa viagem ele teria. Meu deus o que está acontecendo comigo?! Questionei-me milhares de vezes em um só segundo, se é que isso é possível.

A cada minuto que se passava ele acelerava cada vez mais o carro, decidi perguntar pra onde estávamos indo, afinal já haviam se passado dez minutos que tínhamos passado em frente ao hospital. Ele me disse consciente que estava me levando à um lugar seguro para uma conversa a sós.

Por um motivo ou por nenhum, mas ambas as possibilidades desconhecidas, acalmei-me em uma fração de segundos. Aquele miserável sentimento de me sentir bem perto de João ainda não havia passado.

Percebi então que passávamos por uma ponte longa, que parecia não ter fim. E percebi também que não vinha nenhum carro em nossa direção ou em direção oposta à nossa. Por um segundo perdi a visão do horizonte. Nesse mesmo segundo a ponte começou a declinar rapidamente. Estávamos a uma velocidade superior a do som e num outro instante a da luz. João começara a rir escandalosamente e então o desespero tomou posse de mim. Comecei a gritar numa altura insuportável e isso junto com o barulho que o carro fazia devido a alta velocidade fez com que os meus ouvidos começassem a sangrar. Meus tímpanos não agüentavam mais a pressão e minha cabeça também não.

João, aparentemente bem saudável, só me disse algumas coisas: “Eu sou nada mais nada menos que tua cabeça lutando contra o que você é e já cansou de ser.”

Estava decidido a fazer o que veio em minha cabeça. Comecei a estrangulá-lo e o carro andava em ziguezague numa velocidade extremamente maior que o normal. De repente João começou a atravessar meus braços e retomou o controle do volante. Enquanto ele tomou o controle a ponte começou a se inclinar até retomar a posição inicial. De repente um clarão repentino tomou conta de tudo e o taxista agora era um português que falava com um sotaque irritante.

Olhei para meus braços e me vi agarrando o vento. Lembrei que no momento do clarão estava em pleno estrangulamento de João. E a história começa a se tornar complexa a partir daqui. Mais complexa ainda quando percebi, pelo retrovisor, o prédio cor de rosa - salmão onde moro e mais adiante vi o hospital. Mas como isso será possível se não faz nem dois minutos que eu estava numa ponte que se declinava a ponto de perder o horizonte de vista, ninguém sabe.

Pedi ao português para me deixar no hospital, paguei-lhe doze reais pela viagem e me apressei em procurar o pronto socorro. Chegando lá, uma dessas enfermeiras obesas e sem jeito começou a cuidar do meu ferimento, mas o que eu mais me surpreendi é que suas mãos eram de fada. Um toque macio e excitante que me fazia entrar em transe. Mesmo depois de ter terminado a sessão eu continuava na posição ideal para mais massagens. Até que ela me avisou verbalmente sobre o término do curativo.

Com o pé enfaixado, resolvi ir andando à minha casa e ao chegar resolvi que tentaria bolar um plano para pegar o safado do João. Comecei a estudar os seus movimentos comigo mesmo. Pensava sozinho em tudo que ele fazia ou deixava de fazer, e estava, agora, decidido a matá-lo. Dormi cedo para não faltar ao trabalho.

Sete horas da manhã, e lá estava eu no meu escritório, pronto para receber ordens dos superiores e dar ordem aos inferiores, que eram minoria. Trabalhei exaustivamente até as quatro da tarde. Comecei a despedir do pessoal e impreterivelmente às quatro horas e quinze minutos, da tarde, eu passava pela porta da frente do prédio, despedindo-me, também, do porteiro.

Durante todo esse exaustivo período de trabalho havia pensado em comprar alguma arma para facilitar na execução do demônio que andava assolando minha vida. Ainda não tinha pensado em como iria esconder o corpo nem nada disso. A essa altura só pensava em matá-lo a sangue frio.

Lembrei que estava havendo uma exposição de armas do outro lado da cidade e resolvi aparecer por lá para tentar conseguir uma pistola, revólver ou algo do gênero.

O local era um salão próprio para exibições que era alugado para qualquer amostra que fosse ocorrer na cidade. O evento estava muito movimentado. Ao conversar com o dono da exposição percebi que não havia venda de armas nessa droga de exposição.

Depois da frustração resolvi passar em um bar próximo ao local da exposição para tomar uma bebida que esquentasse ainda mais o meu sangue. Pedi uma dose dupla de uísque que desceu cortando minha garganta e parou no meu estômago queimando-o, o melhor é que ao mesmo tempo o líquido massageava todo meu corpo, tanto por dentro quanto por fora.

Por milagre de Deus ou do Outro, ao olhar pro lado vi um rapaz manuseando por baixo do seu casaco uma pistola mais conhecida como trinta e oito - que é o calibre da sua bala -. Ele fazia questão de que ninguém a visse. Resolvi me aproximar lenta e imperceptivelmente até que ele me viu próximo demais e escondeu novamente a sua arma.

Preenchi rapidamente um cheque de oitocentos reais e coloquei sobre a palma da sua mão. Só faltava preencher o espaço reservado à assinatura. O rapaz, mal encarado por sinal, olhou bem para trinta e oito, olhou pra minha cara e em um piscar de olhos analisou toda minha roupa para conferir se o cheque poderia haver fundo. Mostrei-lhe a etiqueta de meu terno Le Fontini, uma marca tradicional italiana, e por outro milagre de Deus ou do Outro ele acreditou em mim e como um passe de mágica eu sentia o frio da pistola que roubava meu calor tão rapidamente quanto a água que entra em ebulição.

Assinei o cheque e voltei pra casa tão satisfeito que tinha até me esquecido da distância do bar até o meu apartamento. Foram exatos cinqüenta e dois minutos de caminhada e durante todo esse processo de locomoção eu só pensava em manusear, o mais rápido possível, a minha arma.

Ao chegar em casa, às oito horas e dois minutos da noite, fiquei admirando minha belíssima aquisição por longas e prazerosas duas horas. Pensei até em arriscar um tiro para o céu estando na varanda, mas achei melhor não. Resolvi tomar um banho e deitar para tentar dormir tranquilamente.

A água nunca me pareceu mais gostosa. As gotas quentes pareciam lágrimas de perdão que lavavam minha alma. Desde o dia em que João – Desgraçado! – não apresentou reflexos eu não conseguia entender meus sentimentos, e continuava sem entender esse prazer que eu estava tendo ao tomar banho.

Não queria sair do chuveiro, mas ainda me restava um pouco de consciência ambiental. Sequei-me rapidamente com a toalha e vesti um pijama desses de seda que todo homem tem. Fui á cozinha, tomei um café reforçado e lembrei que não tinha penteado o cabelo. No caminho de volta ao quarto passei pela sala e vi minha arma brilhando. Resolvi deixá-la perto da cama para qualquer ocasião de perigo. Coloquei-a sobre o criado-mudo que fica ao lado do espelho e bem próximo à cama.

Fui ao banheiro pra pegar um pente e voltei ao quarto. Ao chegar à frente do espelho percebi que meu reflexo estava um pouco turvo, como não tinha nenhum problema de vista pensei que o problema pudesse ser o vapor do chuveiro que o tinha embaçado. Mas, para meu espanto, não era só isso. Ao olhar o espelho, atenciosamente, percebi que minha imagem tomava curvas diferentes e mais uma vez João aparecera em minha vida. Fiquei parado por vinte segundos pensando comigo mesmo em matar o desgraçado. O estranho é que tudo que eu fazia parecia só estar invertido, meu reflexo estava similar ao de João.

Caminhava lentamente em direção ao criado-mudo enquanto o endemoninhado ia me rondando e fazendo os mesmos movimentos que eu só que, sempre, em direção contrária. Por dois segundos agi rapidamente e peguei a arma. Ao olhar para o espelho percebi que ele também apontava uma arma pra mim. Cruel e ligeiramente apontei para o estômago do desgraçado e dei-lhe um tiro. Em uma fração de segundos a mais mirei na sua cabeça e atirei mais uma vez. Tinha acertado em pontos não letais, mas ele morreria de hemorragia. Coloquei a mão sobre a cabeça e me senti aliviado, tentei parar o sangue que jorrava de mim, mas já era tarde pra me salvar...

Caetité, 05 de abril de 2009.

16 comentários:

Enzo disse...

Que criatividade, ein? heuahieh' Ótimo post! Posta mais depois

Rafael Cotrim disse...

Podeixar ;)

dessa_style disse...

fiicou muito show *-*

Rafael Cotrim disse...

Dessa, obrigado :}

may_penelope2 disse...

Uauuuuuuuuuu que sobrenatural Rafa =O

Parabeens mim surpriendeu!;D

;*

Rafael Cotrim disse...

:) Brigado May.

Isabella disse...

O João me comove até hoje hsAUSAHSUHS Gosto de historinhas assim *-* Já te elogiei por essa ;]

Rayanne disse...

ah, esse eu ja conhecia ^^
muito bom mesmo! :)

Rafael Cotrim disse...

;) Obrigado belláH.

Rafael Cotrim disse...

Ray... ;) obrigado!

disse...

O surreal da Vida como ela é..

Muito bom, Rafa!!

Bjoss :)

Rafael Cotrim disse...

Leleska, como sempre, obrigado :)

Raquel disse...

Esse conto me surpreende cada vez que o leio. Parabéns pelo blog Rafa!
:*

Rafael Cotrim disse...

Muito obrigado quel.

Jade disse...

Fora o fato de eu ter medo desse cara e do João. Está ótimo :)

Rafael Cotrim disse...

(Y. Obrigado jadinha.